Leitura deve ser incentivada desde os primeiros dias de vida

Os pais que narram, contam histórias, estimulam o comportamento de leitura na criança. Todos os comportamentos se formam na idade de 0 a 3 anos e esta formação a criança levará para a vida toda

Jargões do tipo que definem os leitores de hoje como o futuro de amanhã são cada vez mais comuns e não é por acaso. A leitura abre portas para o conhecimento e para o imaginário e quanto mais cedo for esta prática, melhor. É por isso que a temática “leitura na infância” deve ser abordada com extrema cautela.

A autora Yolanda Reyes relata no livro A casa Imaginária que falar de leitura na primeira infância exige contexto até mesmo porque todos sabem que os bebês não leem, não no sentido convencional da palavra. Entretanto, a leitura tem suas raízes na complexa atividade interpretativa que o ser humano desenvolve desde seu ingresso no mundo simbólico.

Ela conta que desde o instante em que os bebês chegam ao mundo até o momento em que pouco a pouco começam a se afastar de seus pais para explorar estantes cheias de histórias, ela tem testemunhado o processo gradativo de criação em cada criança. “Como aqueles antigos homens, que juntavam pequenas tábuas de argila para criar significado, tenho presenciado esse fulgor de iluminação em meus primeiríssimos leitores quando eles abrem uma história e, com a ajuda das vozes mais amadas, começam a inventar sua própria história”, comenta.

Para ela, falar da leitura como ferramenta para ser mais competente no sentido meramente acadêmico, não é o interesse fundamental, mas não se pode ignorar o fato de que quanto mais cedo for o contato da criança com a literatura, haverá um reflexo, também, na qualidade da alfabetização. “Existe outra tarefa aparentemente mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais complexa que nós, adultos, podemos assumir: a de oferecer o material simbólico inicial para que cada criança comece a descobrir não apenas quem ela é, mas quem ela pode ser”, aponta a autora.

De acordo com Rita Tussi, autora do Programa Bebelendo, são inúmeros os benefícios da leitura na primeira infância. Entre eles estão: o reforço do vínculo afetivo entre o contador de histórias e a criança, o aumento da capacidade linguística e a formação do comportamento de leitura na criança. “Os pais que narram, contam histórias, estimulam o comportamento de leitura na criança. Todos os comportamentos se formam na idade de 0 a 3 anos e esta formação a criança levará para a vida toda.”

A autora iniciou em 2010 o projeto-piloto “Programa Bebelendo”, realizado entre a UNESCO, a Secretaria do Estado de Saúde e a Prefeitura Municipal do Rio Grande do Sul, que consiste em acompanhar e instruir as mães gestantes de 7 meses para que elas iniciem o hábito de leitura na criança. “O resultado desse programa foi incrível. Hoje, essas crianças têm um pouco mais de dois anos de idade e a capacidade linguística delas é impressionante”, conta. “O mais interessante foi que começamos com 14 mães e vimos isso se multiplicar.”

A autora explica que as crianças podem ser incentivadas através dos livros – de pano e de banho – com dois meses, a partir do momento que elas começam a segurá-los. E também com os livros-brinquedo, a partir dos cinco meses, quando elas aprendem a sentar. Rita Tussi afirma em seu relato que “é importante que ela desenvolva o costume de lidar com o livro só pelo fato de virar a página e que alguém conte a história para ela simultaneamente”, relata.

Os pais, segundo ela, têm papel fundamental neste aprendizado.  “Eles vão começar a apontar os desenhos do livro para a criança e começar a conversar com ela sobre o que está olhando. Isso possibilita trabalhar cores, objetos, animais”, analisa. “As coisas funcionam como modelagem. Se a criança vê a mãe e o pai lendo ou o pai chegar com um livro, esta criança tende a querer imitar e os pais são os primeiros mediadores. Eles leem com a criança e para a criança”

Vale ressaltar que esses momentos devem ser prazerosos, nunca por castigo ou obrigação. “Costumamos dizer que é o amor que valida essas atividades”, ressalta.

A autora relata, ainda, que a partir do momento que o bebê nasce, a mãe tem que agir como uma narradora de jogo de futebol, pois esta criança vai ler o mundo a partir desse contato e isso tudo acaba estimulando o bebê. “O conceito de leitura mudou. Hoje, ler é compreender o mundo e a criança nasce pronta para interagir. Por isso é preciso capacitar a mãe, pois ela será o primeiro texto que ela vai ler e é importante que ela seja um agente motivador desde o primeiro dia de vida dessa criança”.

Rita explica, também, que um dos grandes problemas do Brasil é o elevado índice de analfabetismo funcional que temos. As pessoas leem, mas não entendem. “O sucesso da vida acadêmica está em ler e compreender o que se está lendo. As pessoas que entendem o que leem, buscam elas mesmas o conhecimento que necessitam, por isso é importante que os pais apoiem desde o início e sempre tenham o cantinho da leitura”, finaliza.